promover a economia azul sustentável, reforça todas as estratégias e planos associados ao desenvolvimento sustentável e regenerativo – de cidades, regiões e países. a economia azul sustentável contribui para a edificação de cidades e regiões vibrantes e adaptáveis, onde a vida se revela digna, equitativa e próspera.
INTELCITIES EDIÇÃO N,º 21
O texto que se apresenta de seguida, foi publicado na edição n.º 21 da Revista IntelCities (quadrimestre jan-fev-mar-abr 2026), a qual está já disponível nas bancas e em formato digital.
A economia azul sustentável é água. E água é vida – água é a mãe de tudo e de todos. Nenhuma cidade ou região pode subsistir ou desenvolver-se, sem a disponibilidade de água doce potável. Água é também fonte de alimento; garantia de estabilidade social; condição fundamental para a higiene e a saúde; plataforma para meios de transporte; prestador invisível de serviços dos ecossistemas; e parte integrante de soluções baseadas na natureza.
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O conceito de economia azul tem vindo – com total legitimidade – a assumir relevante protagonismo em diferentes palcos e dimensões, captando progressivamente o interesse de governos, academia, indústria e sociedade em geral.
Porém, apesar da sua atualidade e relevância, predomina ainda uma visão muito limitada da sua definição, assim como das oportunidades e desafios associados. Por esta razão, refletir sobre a importância da economia azul para o desenvolvimento sustentável e regenerativo das cidades e regiões, exige prioridade na clarificação de conceitos fundamentais.
Economia azul e economia azul sustentável
Em primeiro lugar e em termos de amplitude, importa sublinhar que a economia azul abrange todos os espaços aquáticos – incluindo o oceano, mares, costas, lagos, rios e águas subterrâneas. Na realidade, a economia azul acompanha o ciclo completo da água.
Partindo desta visão sistémica, torna-se pertinente associar a economia azul à segurança hídrica e aos seus riscos associados – escassez de água (incluindo secas); excesso de água (incluindo inundações); poluição da água (impossibilitando a utilização); e degradação dos ecossistemas de água doce. Podemos igualmente, associar à economia azul o saneamento básico – tratamento e abastecimento de água potável; coleta e tratamento de esgoto doméstico e industrial; drenagem urbana das águas pluviais; e limpeza, coleta e destinação correta dos resíduos sólidos, incluindo o lixo.
Em segundo lugar, importa clarificar que a economia azul inclui todas as atividades económicas relacionadas com meios aquáticos, podendo estas ser realizadas em qualquer local, inclusive em regiões interiores de países com litoral, ou em países sem acesso ao mar.
Naturalmente, a pesca de recursos marinhos; os portos e o transporte marítimo; as energias renováveis oceânicas; e as centrais de dessalinização – afirmam-se em regiões costeiras, em mares e no oceano. Porém, a pesca em rios; a construção e reparação naval de pequenas embarcações; a biotecnologia azul; o ensino e investigação; a aquacultura (com sistemas de recirculação de água); e o turismo azul (em rios, lagos e barragens) – podem ocorrer longe da vista do mar.
ALGUMAS ACTIVIDADES INTEGRANTES DA ECONOMIA AZUL
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Numa perspetiva ambiental e social, constata-se atualmente, que algumas das atividades relacionadas com a economia azul não são sustentáveis, nomeadamente as indústrias extrativas não renováveis (por exemplo, petróleo e gás offshore e mineração no mar profundo), bem como práticas insustentáveis em outros setores.
Critérios relativamente recentes, associados ao financiamento de projetos azuis sustentáveis, exigiram a diferenciação de atividades. Surgiu assim o termo economia azul sustentável, na qual não se incluem as atividades de elevado impacte ambiental, mencionadas anteriormente. Esta diferenciação, associada aos requisitos do desenvolvimento sustentável e regenerativo, criou as condições para clarificar conceitos e estratégias.
Podemos atualmente, com total confiança, afirmar que a economia azul sustentável tem uma identidade, propósito e foco claros:
– Proporcionar benefícios sociais, ambientais, culturais e económicos equitativos – para as gerações atuais e futuras – sem comprometer a saúde e a sustentabilidade da água, do oceano, do planeta, das pessoas e das comunidades.
Por definição, a economia azul sustentável restaura, protege e mantém ecossistemas diversificados, produtivos e resilientes; e é baseada em tecnologias limpas, energia renovável e fluxos circulares de materiais. É uma economia baseada na circularidade, colaboração, resiliência, oportunidade e interdependência. O desenvolvimento da economia azul sustentável é impulsionado por investimentos que reduzem as emissões de carbono e a poluição; melhoram a eficiência energética; aproveitam o poder do capital natural e os benefícios que os ecossistemas fornecem; e interrompem a perda de biodiversidade.
Em resumo, a economia azul sustentável é um veículo de excelência para o desenvolvimento sustentável e regenerativo.
A conclusão partilhada, permite concluir que a economia azul sustentável não se limita ao âmbito do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (proteger a vida marinha); de facto, reconhece-se de imediato que a economia azul sustentável abraça os 17 ODS da Agenda 2030 das Nações Unidas.
ECONOMIA AZUL SUSTENTÁVEL É ÁGUA
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Relação da economia azul sustentável com cidades e regiões
Confortados com a clarificação de conceitos apresentada, torna-se agora possível e relevante, associar a economia azul sustentável ao desenvolvimento saudável e dinâmico de cidades, regiões e países.
Em primeiro lugar, reconhecemos que a economia azul sustentável é água. E água é vida – água é a mãe de tudo e de todos. Nenhuma cidade ou região pode subsistir ou desenvolver-se, sem a disponibilidade de água doce potável. Água é também fonte de alimento; garantia de estabilidade social; condição fundamental para a higiene e a saúde; plataforma para meios de transporte; prestador invisível de serviços dos ecossistemas; e parte integrante de soluções baseadas na natureza.
As oportunidades e os desafios associados à economia azul sustentável revelam-se de forma interligada e interdependente. Por exemplo, sabemos que mais de 80% do lixo existente no oceano tem origem em terra, devido à inexistência de sistemas de saneamento básico ou ao seu funcionamento deficiente, em centros urbanos com elevada densidade populacional. Sabemos igualmente que cerca de 80% do lixo mencionado é plástico. Esta situação degrada os ecossistemas aquáticos, comprometendo o acesso à água potável e a alimentos; bloqueando o desenvolvimento do turismo azul; e afetando negativamente várias cadeias de valor económico, incluindo a geração de emprego.
ECONOMIA AZUL INCLUI TODO O CICLO DA ÁGUA – A ECONOMIA AZUL VEM DO CÉU
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Por outro lado, importa sublinhar que existe apenas um oceano (embora existam várias bacias oceânicas, sem fronteiras entre si). O lixo arrastado para as águas marinhas num determinado ponto do mundo, é distribuído por outras regiões por efeito das correntes marítimas. Por esta razão, “cidades inocentes” poderão ter as suas regiões costeiras invadidas e a sua biodiversidade marinha ameaçada, por resíduos provenientes de locais remotos. Garantir a saúde do oceano exige assim liderança global e ação concertada.
A economia azul sustentável é um motor de diversificação económica e prosperidade das comunidades. Países, regiões e cidades, devem compreender a sua amplitude e incorporar os seus princípios, nas suas estratégias de desenvolvimento.
O primeiro passo consiste na capacitação de equipas de liderança, com uma visão de 360 graus – um verdadeiro sistema operativo e vocabulário azul – que lhes permita planear, agir e libertar o valor da economia azul sustentável, reconhecendo nela um potente aliado para o desenvolvimento sustentável e regenerativo de cidades e regiões. O Programa de Especialização e Liderança em Economia Azul (PLEA), desenvolvido pelo C2EA e realizado em quatro continentes (Europa, África, América, Ásia), afirma-se como uma solução de capacitação transformadora.
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Conclusão
Promover a economia azul sustentável é fundamental para o fomento da prosperidade das cidades e regiões. A economia azul sustentável protege, conserva e restaura ecossistemas; diversifica e fortalece as economias locais; fomenta a economia circular; aumenta a resiliência climática; promove a educação e o emprego; e reduz desigualdades.
A economia azul sustentável é sinónimo de desenvolvimento regenerativo, integrando os domínios social (prosperidade, bem-estar, equidade, justiça); cultural (comunidade, normas, valores, identidade); ambiental (proteção da biodiversidade e conservação e uso racional de recursos); e económico (crescimento justo).
Claramente e de forma objetiva, promover a economia azul sustentável reforça todas as estratégias e planos associados ao desenvolvimento sustentável e regenerativo – de cidades, regiões e países. A economia azul sustentável contribui para a edificação de cidades e regiões vibrantes e adaptáveis, onde a vida se revela digna, equitativa e próspera.
In "Importância da economia azul para o desenvolvimento sustentável e regenerativo das cidades e das regiões"
Álvaro Sardinha
Revista IntelCities #21 - Abril 2026
https://intelcities.pt/
