Seria bom que as gerações futuras recordassem a atual, como aquela que, orgulhosamente, ousou inverter a trajetória e imaginar um futuro coletivo – como um ecossistema realmente vibrante – pleno de vida, confiança, alegria e prosperidade.
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Transformar a realidade exige romper ciclos e testar novas abordagens, com audácia, propósito e valores. A ambição tem de ser maior, melhor e intemporal.
Precisamos alargar a visão limitada do conceito “economia” – para a visão ampliada do conceito “ecossistema”.
Da economia azul ao ecossistema azul – fomentar uma relação de interdependência, confiança, carinho e partilha – com os outros e com o planeta – com menos “nomia” e mais “sistema” – é a mudança de paradigma necessária.
PARTE A – Economia Azul
Enquadramento
(Sobre)vivemos em pleno século XXI, em tempos acelerados e surpreendentes, a apenas alguns anos do final da Década do Oceano.
Fazemos parte da geração convidada a alterar hábitos e comportamentos, contribuindo para atingir as metas estabelecidas nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (Nações Unidas, 2015-2030).
Somos testemunhas do desvanecimento da dualidade entre desafios e oportunidades – umas incluem as outras.
Elevadas expetativas requerem consistente compromisso.
No entanto, o planeta e o oceano adoecem, infetados pela desigualdade e pela hipocrisia. A natureza e os atuais seres vivos são castigados; muitos dos que estarão a chegar irão conhecer uma dura realidade: a vida é sofrimento.
Pedimos às pessoas que pensem no verde e no azul, enquanto a sua vida se encontra no vermelho. As palavras justiça e economia perdem cor e vigor, tornando-se difíceis de entender e de almejar. Em cada mesa, pão – permanece um propósito utópico.
Nada de novo. Apesar do alarme ambiental e social ter sido dado na década de 60 e até mesmo antes, a ilusão de um planeta com recursos infinitos, sem limite de recursos, continua a imperar.
Os negócios continuam business as usual; a economia azul é pensada e planeada como economia do mar e exploração de recursos; a sustentabilidade e a regeneração são consideradas meras estratégias complementares; as comunidades e as pessoas, em particular as mulheres e os jovens, continuam afastadas da governação.
Estratégia para a estratégia
Continuamos a desenhar estratégias e planos de ação, as quais, na sua maioria, caiem invariavelmente numa gaveta e no esquecimento. Caso para afirmar que precisamos de uma estratégia para elaborar a estratégia da economia azul – começar pelo fim e fazer as perguntas certas; perceber os problemas antes de desenhar as soluções.
Para transformar a realidade, é preciso romper ciclos e testar novas abordagens, com audácia, propósito e valores. A ambição tem de ser maior, melhor e intemporal.
Seria bom que as gerações futuras recordassem a atual, como aquela que orgulhosamente ousou inverter a trajetória e imaginar um futuro coletivo – como um ecossistema realmente vibrante – pleno de vida, confiança, alegria e prosperidade.
Pode a economia azul ajudar?
A economia azul é – de facto – um veículo de excelência, para o desenvolvimento sustentável e regenerativo. Basta atender à sua definição, para sentir a sua energia e perceber o seu potencial de mudança:
A economia azul proporciona benefícios económicos, sociais, ambientais e culturais – para as gerações atuais e futuras – sem comprometer a saúde e a sustentabilidade da água, do oceano, do planeta, das pessoas e das comunidades.
Importa sublinhar que a economia azul compreende uma série de atividades relacionadas com todos os espaços aquáticos, incluindo o oceano, mares, costas, lagos, rios e águas subterrâneas. Nuvens também.
Em boa verdade, a economia azul abrange todo o ciclo da água. E água é vida; água é a mãe de tudo e de todos. Consegue imaginar turismo azul sustentável e regenerativo sem saneamento básico e reutilização da água?
A economia azul é inclusiva – as atividades relacionadas podem ser realizadas em qualquer local, inclusive em regiões interiores de países com litoral, ou em países sem acesso ao mar.
O erro da economia azul
Existindo tanto potencial na economia azul, por que razão persistem as dificuldades em cumprir a sua promessa – convertendo o seu valor em diversificação económica e prosperidade distribuída?
Uma das razões deriva da etimologia da palavra “economia”.
Etimologia da palavra economia
A palavra economia tem origem na Grécia Antiga, na palavra oikonomia, a qual resulta da junção do prefixo Eco (do grego oikos – que significa casa, lar ou património), com a palavra Nomia (do grego nomos ou verbo nemein – que significa lei, regra, gestão ou administração). Desta forma, economia significa literalmente a “administração/ gestão da casa” ou as “regras de gestão do lar”. Mais tarde, o conceito seria expandido para a gestão da pólis (a cidade/ estado).
Importa sublinhar que, tanto a oikonomia da Grécia Antiga quanto a economia contemporânea, estudam o comportamento humano como uma relação entre fins e meios, que possuem usos alternativos. Contudo, embora ambas as abordagens sustentem que a racionalidade de qualquer ação económica depende do uso frugal dos meios, a economia contemporânea é em grande parte neutra em relação aos fins, enquanto na teoria económica antiga, uma ação é considerada economicamente racional, apenas quando realizada em prol de um fim louvável (AEA American Economic Association, 2016).
A maldição da economia
É um facto incontornável: a palavra "economia" afasta a maioria das pessoas. Ao longo de décadas, a economia foi associada a gráficos complexos, jargão financeiro e decisões tecnocráticas, que parecem desligadas do dia a dia.
As comunidades e a sociedade civil em geral não entendem e fogem da palavra economia, principalmente por três grandes barreiras:
- Linguagem excludente: expressões como "política orçamental", "deflação" ou "taxas Euribor" criam um muro invisível que faz o cidadão comum sentir que o tema não é para ele;
- Perceção de impotência: muitas pessoas sentem que as grandes decisões económicas são tomadas por mercados invisíveis ou elites políticas, gerando apatia.
- Foco no PIB e não nas Pessoas: medir o sucesso de um país apenas pelo crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), ignorando a qualidade de vida, a saúde mental ou a sustentabilidade ambiental – desumaniza a economia.
A solução da economia
Como aproximar a economia das pessoas? Para que as comunidades recuperem o seu papel central na discussão económica, a abordagem precisa mudar radicalmente:
- Mudar o vocabulário: substituir o jargão técnico por conceitos práticos. Falar de "como esticar o orçamento familiar", "o preço do cabaz de compras" ou "o acesso à habitação". Isso é economia.
- Fomentar a literacia financeira e digital: explicar de forma simples e acessível como a inflação afeta o poder de compra real ou como funcionam os impostos locais.
- Promover modelos alternativos: destacar conceitos como a economia circular (combate ao desperdício); a economia social (cooperativas e IPSS); a economia azul (veículo para a sustentabilidade); ou a economia donut (equilíbrio entre o teto ambiental e a base social).
De facto, quando explicamos e percebemos que a economia determina o horário de trabalho dos pais, a qualidade das escolas dos filhos e o futuro do planeta, a sociedade civil deixa de fugir e passa a querer participar. Um plano de comunicação estratégica é fundamental para alcançar este objetivo.
Escutar a ecologia
Etimologia da palavra ecologia
O conceito de ecologia evoluiu diretamente a partir da mesma raiz grega da economia, partilhando o termo oikos (casa, lar ou património) e adicionando o termo logos (estudo, tratado, ciência), também de origem grega. O conceito de ecologia muda o foco da gestão para o estudo da casa – considerando essa "casa" não apenas como o lar humano, mas sim a natureza inteira – o ambiente onde os seres vivos habitam e interagem.
Atualmente, a evolução destes conceitos fechou um ciclo. Os cientistas e economistas perceberam que é impossível gerir a "casa dos humanos" (economia) destruindo a "casa da natureza" (ecologia). Isto deu origem à economia ecológica, uma área que estuda a sustentabilidade e defende que o sistema económico humano é um subsistema dependente dos limites do ecossistema global.
Infelizmente, esta evolução não é percebida pela maior parte das pessoas e das comunidades em geral, persistindo uma conotação negativa da palavra economia – a qual penaliza a aceitação e desempenho da economia azul.
Mudança de paradigma
Promover a solução da economia apresentada atrás, é uma hipótese para desmistificar a perceção menos atraente da palavra economia. Existe, no entanto, outra possibilidade a considerar – alargar a visão limitada do conceito “economia” – para a visão ampliada do conceito “ecossistema”.
Etimologia da palavra ecossistema
A palavra ecossistema tem origem na junção do prefixo Eco (do grego oikos) com a palavra Sistema (do grego systēma, que significa "conjunto organizado" ou "reunião de várias partes"). Etimologicamente, ecossistema significa "sistema da casa" ou "o funcionamento conjunto do nosso lar natural".
Atualmente, um ecossistema representa o conjunto das relações de interdependência das comunidades que vivem num determinado local e interagem entre si e com o ambiente, constituindo um sistema estável, equilibrado e autossuficiente.
Também chamado biossistema ou biogeocenose, o termo foi cunhado pelo ecologista Arthur George Tansley, em 1935. Desde então, integra o vocabulário da comunidade científica e da sociedade, tendo ganho cada vez mais importância à medida que os debates sobre sustentabilidade ganham maior relevância.
Um ecossistema é formado por dois grandes componentes: o biótico e o abiótico. O primeiro é composto pelos seres vivos de uma comunidade, como as plantas e os animais. De facto, cada um desempenha um papel diferente num ecossistema e ocupa diferentes níveis tróficos, podendo ser produtores, consumidores ou decompositores. Como as comunidades mantêm uma relação de interdependência entre si, os produtores garantem a entrada de energia no sistema; os consumidores dinamizam o fluxo de energia e matéria, e os decompositores garantem a reciclagem dos nutrientes. Por outro lado, temos os componentes abióticos, que são considerados como partes sem vida do ambiente. Exemplos desses componentes são o solo, a atmosfera, a luz e a água, fatores fundamentais para a manutenção da vida, atuando no metabolismo dos seres vivos e garantindo a sobrevivência das espécies.
Dado que a noção de ecossistema é bastante ampla, desde uma gota de água até à floresta amazónica podem ser classificados como ecossistemas. Afinal, numa gota de água pode existir uma comunidade de micro-organismos que interagem com o ambiente em que estão. Nesse sentido, os ecossistemas existem em diferentes escalas – desde a própria biosfera, ou seja, qualquer local do globo onde há vida – até às plantas e gotas de água. Desde que haja interação entre fatores bióticos e abióticos, podemos classificar qualquer conjunto de comunidades em interação como um ecossistema.
A solução do ecossistema
Pelas definições apresentadas, podemos concluir que a transição do conceito de economia para ecossistema quebra barreiras e convida todos a fazer parte – quer do diálogo, planeamento e governação – até à partilha equitativa do valor gerado na comunidade.
O erro da economia azul – a dificuldade em converter a promessa da economia azul em valor real e distribuído – poderia ser, em parte, colmatado pela transição para a reflexão, diálogo e ação – num ambiente inclusivo designado por “ecossistema azul”.
Este alargamento de visão e transição holística, convida a abandonar igualmente a designação “cluster de economia azul” ou “cluster de economia do mar”, normalmente associada a uma rede de organizações, focadas em sinergia e promoção de negócios.
Um ecossistema azul convidaria à realização de eventos amplos e inclusivos, comunitários e participativos, abertos a todos, quebrando-se o ciclo dos eventos em que a sala está sempre cheia (ou vazia) com as mesmas pessoas.
O que diz a investigação
Pessoas, comunidades, património cultural na economia azul
Um relatório publicado pela UNESCO em junho de 2026 e intitulado “A economia azul na ciência, nas políticas públicas, no ensino superior e nas comunidades”, revela que a economia azul é, atualmente, demasiada economia e – muito pouco – pessoas, colaboração e cultura.
O relatório alerta para o “desafio persistente de assegurar uma inclusão social significativa nos sistemas de governança”, sublinhando que “o futuro da economia azul não depende apenas do crescimento económico e da gestão dos recursos marinhos, mas também da capacidade de fortalecer formas de governança oceânica mais inclusivas, participativas e socialmente enraizadas.”
A investigação adota “uma perspetiva socioecológica e interdisciplinar, reconhecendo a economia azul não apenas como um tema económico, mas como um campo estruturado a partir de sistemas de governança, sustentabilidade ambiental, património cultural, conhecimentos locais e resiliência comunitária.”
Neste contexto, identifica que “a investigação sobre economia azul está mais fortemente vinculada a expressões como crescimento azul, crescimento económico e desenvolvimento sustentável, enfatizando o desenvolvimento/ crescimento económico e a utilização de recursos.”
Acrescenta ainda que “a quase ausência de bigramas relacionados com género no conjunto de dados, também evidencia a persistente marginalização das questões de equidade social, sobretudo no âmbito da economia azul, cujo discurso está centrado no crescimento.”
A situação agrava-se com a constatação de que “apesar dos avanços substanciais na gestão ambiental, na adaptação à mudança climática e na governança marinha, as dimensões do património e das comunidades continuam a ocupar uma posição relativamente marginal no âmbito da governança da economia azul.”
E conclui, afirmando que “o futuro da economia azul depende do fortalecimento das conexões entre conhecimento científico, políticas públicas, ensino superior e experiências comunitárias”, acrescentando que “mulheres e jovens devem ser reconhecidos e apoiados como agentes ativos de transformação, inovação e contribuição para os processos de tomada de decisão em todas as etapas de conceção, implementação e avaliação das iniciativas de economia azul.”
Em conclusão, a economia azul precisa de uma mudança de paradigma, ampliando o seu horizonte dos tradicionais objetivos económicos, para um verdadeiro ecossistema azul – inclusivo, vibrante e interdependente.
Sucesso dos ecossistemas
Ecossistemas no mundo dos negócios e da tecnologia
No mundo dos negócios e da tecnologia, o conceito de ecossistema foi adaptado para descrever uma rede interdependente de empresas, produtos, serviços e utilizadores, que colaboram e competem entre si para criar valor. Tal como na biologia, onde a sobrevivência de uma espécie depende do equilíbrio de todo o habitat – no mercado moderno o sucesso de uma empresa depende da saúde do ecossistema onde ela opera.
O conceito de ecossistemas de negócios (business ecosystems) foi introduzido pelo estratega James F. Moore em 1993, substituindo a ideia tradicional de "setor industrial" rígido, por uma visão de rede dinâmica caracterizada pela cocriação de valor: uma empresa já não produz tudo sozinha. Ela lidera ou participa numa rede de fornecedores, parceiros logísticos, distribuidores e criadores de tecnologia.
De acordo com Moore, um modelo de negócios para a própria empresa simplesmente não basta. Os líderes precisam construir comunidades fortes com significados compartilhados, que proporcionem resiliência, flexibilidade e resistência especiais a catástrofes.
As empresas de mobilidade como a Uber, são um bom exemplo de um ecossistemas de negócios – ligando motoristas (trabalhadores independentes), passageiros, sistemas de mapas (como o Google Maps), processadores de pagamentos e companhias de seguros. Se um destes elementos falhar, o negócio colapsa.
O conceito de ecossistemas tecnológicos (technology ecosystems) refere-se à integração de hardware, software e serviços, que funcionam melhor quando utilizados em conjunto, criando um ambiente fechado ou semiaberto para o utilizador.
Marcas como a Apple promovem a retenção e a fidelização através de ecossistemas tecnológicos onde o iPhone, o Mac, o Apple Watch e os serviços (iCloud, Apple Pay) funcionam de forma fluida. Quanto mais produtos o utilizador adquire, maior é o custo e a dificuldade de mudar para a concorrência.
As plataformas de desenvolvimento são outro bom exemplo – o ecossistema Android ou o ecossistema de serviços na nuvem da Amazon (AWS), dependem de programadores externos que criam aplicações e ferramentas, alimentando e expandindo o valor da própria plataforma.
PARTE B – Competências e Carreiras Azuis
Economia azul – o que ganho com isso?
Também no emprego e nas carreiras azuis, é fundamental alargar a visão limitada do conceito “economia” – para a visão ampliada do conceito “ecossistema”.
O valor da economia azul não se manifesta apenas na inovação, criação de empresas e geração de riqueza.
A economia azul é, igualmente, uma dinâmica e potente fonte de criação de emprego, inspirando competências azuis e alimentando percursos de aprendizagem; proporcionando o desenvolvimento de carreiras azuis dignas e gratificantes.
Todos podem trabalhar na economia azul.
Porém, as limitações ao acesso erguem-se como altos muros: falta de visibilidade, ausência de perceção do valor e desconhecimento das portas de entrada – são barreiras comuns que as famílias, as escolas e as comunidades encontram.
Todos podem trabalhar na economia azul.
As carreiras azuis não estão confinadas a categorias ou profissões específicas. Nem a limitações de género ou de idade.
A economia azul é, por definição, internacional, multicultural e multidisciplinar – muito mais que uma economia – um verdadeiro ecossistema azul.
Maldição da economia para as carreiras azuis
Quando se fala de escolher carreiras profissionais, muitos pais e jovens fogem da palavra “economia” por associarem o termo estritamente a números frios, mercados de ações, crises financeiras ou gráficos complexos de inflação e lucros corporativos, o que pode parecer distante de valores pessoais e preocupações com a sustentabilidade planetária.
A “fuga” tem razões:
- Mito da matemática extrema: muitas pessoas acreditam que a economia é apenas matemática avançada, ignorando que se trata, na verdade, de uma ciência social focada no comportamento humano e na tomada de decisões.
- Medo da monotonia: existe a falsa perceção de que o economista passa o dia trancado num escritório a analisar folhas de cálculo, quando o campo de atuação é vastíssimo.
- Pressão por carreiras tradicionais: historicamente, áreas como medicina, engenharia ou direito eram vistas como os únicos caminhos seguros para o sucesso, deixando a economia e a gestão em segundo plano na mente de algumas famílias.
- Perceção de frieza: a economia tradicional é vista frequentemente como um sistema focado apenas no dinheiro, ignorando o bem-estar social e ambiental.
- Desconhecimento do termo: muitas pessoas não sabem que a economia azul engloba áreas modernas, dinâmicas e focadas na preservação, e não apenas indústrias tradicionais como a pesca ou o transporte marítimo.
Jovens na economia azul
Maldição da economia aplicada aos jovens
A palavra “economia” pode afastar os jovens da economia azul. Embora o conceito de economia azul tenha sido desenhado para unir a preservação do oceano ao desenvolvimento sustentável, o termo "economia" carrega barreiras psicológicas, ideológicas e de comunicação, que muitas vezes geram desinteresse ou desconfiança nas gerações mais jovens.
Vários especialistas em literacia do oceano e envolvimento jovem apontam que a terminologia atual – assente na palavra “economia” – falha em conectar-se com as prioridades desta geração pelas seguintes razões:
1. Associação ao capitalismo tradicional e à exploração
Para muitos jovens, a palavra "economia" está intrinsecamente ligada a modelos de negócio tradicionais: extração de recursos, foco exclusivo no lucro a curto prazo e degradação ambiental.
Quando ouvem "economia azul", o cérebro foca automaticamente no substantivo (economia) em vez do adjetivo (azul). Isto cria o receio de que o conceito seja apenas uma nova roupagem (blue-washing) para industrializar e explorar o oceano profunda e agressivamente.
2. Falta de conexão emocional – desconexão ecológica e de propósito
Em geral, as gerações mais jovens são movidas por um forte sentido de ativismo climático, conservação e regeneração. O termo "economia" soa burocrático, corporativo e distante da paixão biológica ou ambiental. Dizer que vão trabalhar na "economia do mar ou no cluster da economia azul" soa menos inspirador do que dizer que vão "proteger o oceano" ou "desenvolver tecnologias limpas".
Se um jovem quer "salvar o oceano", irá procurar conceitos como ecologia, biologia marinha, ativismo ou sustentabilidade. Ao rotular este ecossistema como uma "economia", o discurso institucional reduz o oceano a um mero ativo financeiro.
3. Falta de literacia de carreiras azuis (o que significa na prática?)
Dizer a um estudante que há futuro na "economia azul" não é claro. O termo é abstrato. Os jovens não se visualizam a trabalhar numa "economia", mas sim em profissões concretas.
Sem uma tradução prática – explicar que as carreiras azuis incluem desde a robótica submarina e energias renováveis offshore até ao ecoturismo regenerativo, biotecnologia marinha ou restauro de recifes – a palavra funciona como uma barreira técnica que esconde as oportunidades reais.
4. Barreiras de linguagem académica e institucional
A "economia azul" é um termo muito utilizado em fóruns internacionais (como as Nações Unidas ou a União Europeia) e relatórios governamentais. Esta linguagem de topo para a base (top-down) afasta os jovens que preferem comunicações mais orgânicas, visuais e focadas na comunidade.
Como aproximar os jovens?
Para inverter este afastamento, governos, escolas e organizações têm alterado a forma de comunicar através de diferentes abordagens:
Abordagem antiga (que afasta)
- Aumentar o VAB (Valor Acrescentado Bruto) do setor marítimo;
- Exploração sustentável de recursos biológicos;
- Crescimento azul e economia do mar.
Nova abordagem (que aproxima)
- Criar empregos que protegem o oceano e combatem a crise climática;
- Inovação e biotecnologia para curar doenças e criar materiais inovadores;
- Geração Oceano, empreendedorismo azul e futuro coletivo.
Promover "empregos azuis sustentáveis" ou "carreiras no oceano" em vez de focar no jargão macroeconómico, tem-se provado muito mais eficaz para atrair o talento jovem para a causa marinha e para a importância da água – na vida e no planeta.
Conclusão
Se o conceito de economia azul não é fácil de explicar, inspirar o conceito de ecossistema azul não será tarefa mais fácil.
Não se trata de uma transição ou mera troca de palavras. A mudança tem de ser profunda.
O conceito de ecossistema azul constitui o rumo e o pilar fundamental, da estratégia para elaborar a estratégia da economia azul, inspirando boas ideias e convidando todos a participar – no diálogo, nos planos, na execução e, claro, na partilha e celebração dos resultados.
A mudança começa dentro de cada pessoa. Não basta falar de digitalização e descarbonização, como as soluções para todos os problemas. Tal como a palavra “economia”, estes conceitos permanecem distantes para a maior parte das pessoas. E se a comunidade não os entende nem deles se apropria, prevalece o sentimento de exclusão que caracteriza os ecossistemas menos vibrantes.
Precisamos de emocionalização, consciência sistémica e literacia das emoções.
Conhecimento só por si não altera comportamentos – a liderança exige inteligência emocional. Precisamos perceber o ecossistema azul em toda a sua plenitude – nós – os outros – o bem-comum.
Não basta querer um planeta melhor – precisamos querer ser melhores pessoas. Perceber que – antes de pensar, sentimos. Depois agimos.
Inspirando, sem empurrar e sem ressentimentos.
Da economia azul ao ecossistema azul
– fomentar uma relação de interdependência, confiança, carinho e partilha
– com os outros e com o planeta
– com menos “nomia” e mais “sistema”
– é a mudança de paradigma necessária.
Bem-vind@s ao ecossistema azul!
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PROGRAMA DE ESPECIALIZAÇÃO E LIDERANÇA EM ECONOMIA AZUL (PLEA)
A definição de economia azul e a necessária transição para um ecossistema azul, é um dos temas abordados – em profundidade – no Programa de Especialização e Liderança em Economia Azul (PLEA).
Saiba mais seguindo a ligação abaixo.
Texto: Álvaro Sardinha, outubro 2026
